Brasil avança com cautela na expansão do biodiesel

Enquanto a Indonésia adota o B50, Brasil testa misturas de até 25% antes de ampliar o biodiesel no diesel nacional.

João Victor Almeida - Foto: Divulgação

8/19/20262 min read

O Brasil mantém atualmente a mistura obrigatória de 15% de biodiesel no diesel, o B15, enquanto realiza testes para avaliar a viabilidade técnica de percentuais maiores. O contraste chama atenção porque a Indonésia já avançou para uma mistura de 50%, o B50.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a diferença está principalmente nas características de cada mercado. Matérias-primas, clima, frota, infraestrutura e logística interferem no comportamento do combustível e precisam ser considerados antes da adoção de novas misturas em escala nacional.

Na Indonésia, o biodiesel é produzido principalmente a partir do óleo de palma. Já o Brasil possui uma cadeia mais diversificada, utilizando matérias-primas como óleo de soja e sebo bovino, que apresentam propriedades químicas diferentes e podem influenciar características do combustível.

Por isso, o Programa Nacional de Testes de Biodiesel está avaliando inicialmente misturas entre B16 e B20. Em uma segunda etapa, os ensaios devem alcançar percentuais entre B21 e B25.

Os testes começaram em agosto e devem continuar até fevereiro de 2027. A expectativa é que o primeiro relatório indique se o B20 é tecnicamente viável e se sua adoção dependerá de mudanças nas especificações do combustível ou na regulamentação.

O programa envolve diferentes integrantes da cadeia, incluindo produtores de biodiesel, distribuidores, empresas de combustíveis, montadoras e fornecedores de componentes. Os ensaios analisam tanto aspectos físico-químicos quanto o desempenho mecânico de motores e veículos.

Enquanto o governo destaca a necessidade de segurança técnica, representantes da indústria defendem uma expansão mais rápida e previsível. Uma das possibilidades discutidas pelo setor seria avançar inicialmente para B16 ou B17 utilizando resultados parciais dos testes, sem necessariamente saltar diretamente para B20.

Além da questão técnica, aumentar a mistura tem implicações econômicas e energéticas. O setor argumenta que uma participação maior do biodiesel poderia estimular a produção nacional, gerar demanda para matérias-primas agropecuárias e reduzir parte da dependência brasileira do diesel importado.

Para a indústria, previsibilidade também é importante para novos investimentos. A construção ou ampliação de usinas exige volumes elevados de capital, e uma definição mais clara sobre a trajetória futura da mistura poderia influenciar decisões sobre aumento da capacidade produtiva.

A experiência da Indonésia mostra que percentuais elevados de biodiesel são possíveis dentro de determinadas condições, mas o MME ressalta que o B50 indonésio não pode ser simplesmente reproduzido no Brasil, devido às diferenças entre as cadeias produtivas e condições operacionais dos dois países.

Assim, o avanço brasileiro além do B15 deverá depender dos resultados dos testes, da adaptação dos motores e combustíveis, das condições logísticas e da definição de uma trajetória regulatória que concilie expansão do biodiesel, segurança técnica e capacidade de investimento do setor.

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