Crise no campo avança e pedidos de recuperação judicial crescem 21,9%
Crédito restrito, custos elevados e endividamento pressionam produtores; foram 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre.
João Victor Almeida - Foto: Divulgação
8/12/20262 min read


O aumento do endividamento no agronegócio brasileiro continua refletindo na situação financeira dos produtores. No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial ligados ao setor, crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian.
O número também representa avanço em relação ao quarto trimestre de 2025, quando foram contabilizados 408 pedidos. O movimento ocorre em um ambiente marcado por crédito mais seletivo, custos elevados de produção, margens pressionadas e produtores com maior nível de alavancagem financeira.
Entre os estados, Mato Grosso liderou o levantamento, com 135 pedidos de recuperação judicial. A concentração chama atenção pela importância do estado para a produção brasileira de grãos e pela elevada necessidade de capital para financiar as lavouras. Entre as atividades analisadas, o cultivo de soja apresentou o maior número de solicitações, com 137 registros.
Um dos principais destaques está no crescimento dos pedidos realizados por produtores constituídos como pessoa jurídica. Foram 196 solicitações no período, uma alta expressiva de 73,5%. Entre produtores que atuam como pessoa física, por outro lado, foram registrados 182 pedidos, recuo de 6,7%.
O cenário financeiro do campo vem sendo pressionado por diferentes fatores. Além do custo dos insumos, máquinas, combustíveis e operações agrícolas, produtores precisam lidar com condições mais rigorosas para obtenção de crédito e elevado custo financeiro. Quando essas despesas se acumulam com resultados menores nas safras ou preços menos favoráveis para determinadas commodities, a capacidade de pagamento das propriedades pode ser comprometida.
A recuperação judicial funciona como um instrumento para tentar reestruturar dívidas e evitar a insolvência, permitindo a negociação com credores dentro de um processo judicial. Entretanto, a própria Serasa Experian destaca que o mecanismo deve ser encarado como último recurso, depois de alternativas como renegociação das dívidas e reorganização financeira.
Para os próximos meses, o comportamento dos pedidos deverá depender principalmente da capacidade dos produtores de gerar receita, recuperar margens e renegociar compromissos financeiros. Condições de crédito, juros, preços das commodities, custos dos insumos e desempenho das próximas safras também serão determinantes.
O crescimento de 21,9% nos pedidos de recuperação judicial reforça um sinal de alerta sobre a saúde financeira de parte do agronegócio brasileiro. Mesmo em um setor de grande peso para a economia nacional, propriedades e empresas podem enfrentar dificuldades quando custos elevados, dívidas acumuladas e restrições de crédito acontecem simultaneamente.
