Unha-do-diabo preocupa produtores e entra no foco de plano nacional de combate
Espécie invasora avança pelo Nordeste, ameaça a cadeia produtiva da carnaúba e mobiliza órgãos públicos, pesquisadores e produtores na busca por soluções de controle.
João Victor Almeida - Imagem: Associação Caatinga
6/15/20262 min read


O avanço da planta invasora conhecida como unha-do-diabo tem gerado crescente preocupação entre produtores rurais, pesquisadores e autoridades ambientais do Nordeste brasileiro. A espécie, cientificamente denominada Cryptostegia madagascariensis, vem causando impactos ambientais, econômicos e sociais, especialmente em áreas ligadas à produção da carnaúba, uma das atividades mais importantes para a economia regional.
Diante desse cenário, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), com apoio da Associação Caatinga, promoveu um encontro técnico em Fortaleza (CE) para discutir estratégias de enfrentamento à invasão da planta. O evento reuniu representantes de órgãos federais, estaduais e municipais, pesquisadores, integrantes do setor produtivo e comunidades diretamente afetadas pelo problema.
Durante a reunião, foi debatida a criação de um Plano Nacional de Prevenção, Monitoramento e Manejo da espécie, com o objetivo de coordenar ações que possam conter sua expansão e minimizar os prejuízos causados em diferentes regiões do país.
Embora seja frequentemente associada aos carnaubais, a unha-do-diabo apresenta alta capacidade de adaptação e dispersão. A planta pode ser encontrada em margens de rios, açudes e outras áreas úmidas, formando densas massas de vegetação que dificultam o acesso de pessoas e animais aos recursos hídricos. Sua rápida propagação tem provocado alterações no ambiente natural e comprometido atividades econômicas locais.
Outro fator que preocupa especialistas é a elevada resistência da espécie. Mesmo após o corte, a planta possui grande capacidade de regeneração e rebrota. Além disso, produz um látex tóxico, tornando as operações de manejo mais complexas e exigindo cuidados especiais por parte dos trabalhadores envolvidos no controle.
Entre as alternativas discutidas para o combate à invasora, ganhou destaque o controle biológico por meio do fungo Maravalia cryptostegiae. O agente já foi utilizado com sucesso na Austrália para controlar espécies do mesmo grupo, apresentando resultados positivos na redução da infestação. Especialistas defendem o avanço dos estudos e das análises regulatórias necessárias para viabilizar pesquisas, importação e eventual utilização do método em território brasileiro.
Também foi debatida a possibilidade de declaração de emergência fitossanitária ou ambiental, medida que poderia acelerar procedimentos legais e administrativos relacionados ao enfrentamento da espécie invasora. A proposta é vista como uma alternativa para ampliar a capacidade de resposta dos órgãos responsáveis diante da expansão do problema.
Além das discussões técnicas, equipes realizaram visitas de campo em diferentes áreas do Ceará para avaliar a situação diretamente nas propriedades rurais e comunidades afetadas. As atividades permitiram a coleta de informações sobre os impactos da invasão e a troca de experiências entre produtores, pesquisadores e agentes ambientais.
A preocupação é especialmente grande para a cadeia produtiva da carnaúba, atividade que gera milhares de empregos e movimenta a economia de diversos municípios nordestinos. O avanço da unha-do-diabo ameaça áreas produtivas e pode comprometer a sustentabilidade de uma cadeia reconhecida mundialmente pela produção da cera de carnaúba, utilizada em diversos segmentos industriais.
Com o aumento dos registros da espécie em diferentes localidades, cresce também a necessidade de ações coordenadas entre poder público, setor produtivo e comunidade científica. O objetivo é evitar que a invasora continue avançando sobre áreas produtivas e ambientais, garantindo a preservação dos ecossistemas e a manutenção das atividades econômicas que dependem diretamente desses recursos naturais.
